Macarrão x Pão

Celebrando a diversidade através da troca cultural

Elementos culturais, incluindo comida, viajam pelo mundo afora. A jornada de continente em continente é mais complicada e interessante do que os outros imaginam ser. Nesse processo, elementos tipo comida, roupa ou abrigo sofrem muitas mudanças. Eles imitam elementos similares em outras sociedades, e sociedades dominantes podem acabar tendo uma influência sobre as menos dominantes. Um fenômeno notável é a capacidade de áreas que foram conquistadas em termos de poder militar ou poder econômico, se assimilarem aos seus conquistadores. Aonde nós podemos observar isso? Nas refeições.

O macarrão e o pão

Entre as significativas comidas da história da humanidade está o macarrão. Em Xinjiang, o macarrão foi descoberto há milhares de anos atrás. Por que essa descoberta foi feita no coração da Ásia Central, justamente na Rota da Seda? Existem muitas interpretações, talvez porque aquela área era onde pessoas de diversas etnias estavam envolvidas comercialmente. A Rota da Seda, uma série de rotas de caravanas que ligavam a Ásia Oriental e o Oriente Médio, era uma rota amplamente utilizada para o comércio bidirecional: do Ocidente para o Ocidente e do Ocidente para o Oriente.

A origem do trigo e das comidas a base de farinha podem ser registradas no Oriente. Nos primeiros anos da Dinastia de Han (206 aC até 220 dC), há registros desse tipo de comida na Ásia Oriental. No Ocidente, a comida típica a base de farinha era o pão. Uma hipótese plausível é que o trigo foi introduzido na Ásia Oriental por comerciantes na Rota da Seda, e mais tarde foi usado para fazer macarrão. O trigo, usado para fazer o pão no Ocidente, se transformou em macarrão no Oriente. Qual então seria a diferença entre os dois?

Ambos, pão de trigo e macarrão de trigo, eram feitos a partir da mistura de água com a farinha de trigo para fazer a massa. O pão é assado no forno enquanto que o macarrão é cozido em água fervente em uma panela. O macarrão ainda é feito da mesma forma que era feito há dois mil anos atrás. A massa é cortada em longas e finas tiras para que possa cozinhar na água fervendo em um curto período de tempo. O pão não precisa ser cortado em tiras, já que o forno distribui o calor uniformemente dentro de um grande espaço. A farinha de trigo, um subproduto de trocas entre a Ásia Oriental e o Oriente Médio e a Europa, evoluiu para macarrão e pão, dependendo da região geográfica. Como você pode ver, um dos maiores alimentos do mundo não foi inventado pelos top chefs. Em vez disso, eles foram moldados ao longo dos séculos através das trocas e interações humanas. O macarrão, favorito de muitos, também nasceu dessa forma.

Identidade culinária e patrimônio

O macarrão, graças a sua adaptabilidade, foi introduzido em diversas cozinhas pelo mundo. Países têm aplicado diferentes técnicas e receitas, nascendo assim o macarrão de arroz no Sudeste Asiático e o macarrão de trigo sarraceno no Nordeste Asiático. Talvez um novo tipo de prato com macarrão esteja sendo desenvolvido neste exato momento.

O mundo que conheci enquanto fazia vários documentos gastronômicos – Noodle Road, Philosophers in the Kitchen: On Hansik, Food Odyssey Kitchen – refletiu o ditado “Você vê tanto quanto você sabe.”  O macarrão era apenas o começo. Para entender a cultura alimentar mundial, vale mencionar os três maiores eventos da história da alimentação. Eles são: a descoberta do fogo, o inicio da agricultura e a Era dos Descobrimentos, período em que o Mundo Velho fez contato com o Novo Mundo. Isso abriu caminho para a disseminação global das culturas alimentares.

No ano passado, durante a filmagem do documentário “Food Odyssey: Taste of City,” eu visitei a casa de um fazendeiro nos Andes, no Peru. Uma mulher indígena sul americana nos levou para um armazém. Fiel à reputação do país da origem das batatas, estava cheio de batatas. Há uma variedade de batata que é tão difícil de descascar que o nome dela na língua local (Quechua) significa “faz a nora chorar”. Essas batatas foram introduzidas na América do Norte e na Europa, mas algumas pessoas as chamam de “massas do diabo” por causa do seu formato de aparência estranha. Eles podem ter recebido com suspeita no passado, mas hoje a batata é um dos principais ingredientes em muitas cozinhas.

Comida é parte da historia, e a civilização humana depende da comida. É a acumulação tangível do tempo, e, portanto, a identidade de um grupo de pessoas. A cultura alimentar de cada e todo país merece respeito e consideração, especialmente nessa era de globalização.

Os gourmets têm um gostinho da tradição

A pergunta mais comum que eu recebi enquanto fazia o documentário “Noodle Road” foi, “Por que você não incluiu histórias sobre o macarrão na Coreia?” É verdade que o macarrão faz parte da cozinha coreana. No entanto, a Coreia tem uma história relativamente curta de apreciação do macarrão. Eu não queria deixar minhas opiniões subjetivas sobre a culinária coreana influenciarem boa parte do documentário. Se isso tivesse acontecido, eu poderia ter falhado em adotar uma perspectiva global. O mesmo se aplica no caso dos alimentos. Libertar-se da mentalidade “o nosso é melhor” é essencial para abrir novas portas.

Vamos dar uma olhada em uma mesa de jantar comum durante uma refeição. Está preenchida apenas com comida que é natural da península coreana? A não ser que você vá em um restaurante tradicional, a realidade é que a maioria das refeições não são cem por cento nativas. As pessoas comem torrada ou café no café da manhã, macarrão de arroz no almoço, e sushi no jantar. Nenhum desses é nativo coreano.

A comida mais apreciada em Nova York pode ficar popular nas ruas de Seul na semana seguinte. Quando se trata de comida, as barreiras geográficas podem se esvair com a globalização.

“Tem o gosto melhor do que o gosto da pipoca. Não é oleoso. É um petisco muito interessante.” – Pierre Gagnaire, possui três estrelas Michellin, sobre o petisco de milho coreano 강냉이 gangnaengi no mercado Moran.

“Isso é simplesmente delicioso! Eu prefiro isso do que uma omelete no Monte São Michel.” – Yoshiki Tsuji, presidente do Instituto de culinária Tsuji, sobre as panquecas salgadas 빈대떡 bindaetteok no Mercado Gwangjang.

As falas acima foram feitas por chefs famosos no meu documentário “Philosophers in the Kitchen: on Hansik.” Eu não pude evitar a surpresa em como quão impressionados eles ficaram com comidas simples vendidas nos mercados tradicionais de Seul. Isso demonstra que os paladares dos gourmets modernos estão abertos à novos sabores.

O poder das trocas é o que faz uma refeição mais abundante. Só conseguimos esse feito com uma mente aberta e um certo respeito pelos outros ingredientes e cozinhas. Claro, alguns obstáculos devem ser superados para aceitar e desfrutar de alimentos desconhecidos. Se você tiver preconceito contra certos ingredientes ou países, será difícil desenvolver uma opinião favorável para diferentes e variados sabores que existem na cozinha daquele país. Com o crescimento da popularidade da música, filmes e novelas coreanas na Ásia Oriental e nos outros lugares, naturalmente o interesse mundial pela cozinha coreana vem aumentando. Esse é um importante ponto a ser notado.

A chave para aproveitar a diversidade gastronômica é ter respeito pelas outras cozinhas e outras pessoas. Isso te dá mais coragem para provar novas comidas que você nunca viu antes na sua cidade natal. Hoje em dia, com a globalização, os chefs começaram a integrar receitas do mundo inteiro em seus cardápios. As refeições passaram a ser globais, e isso é claramente uma tendência muito bem-vinda. Promovendo o respeito e compreensão com as diversidades, a comida, como um aspecto da humanidade, pode ser realmente apreciada.

Este artigo foi publicado originalmente na Korea Magazine, escrito por Lee Wook-jung, e pode ser conferido no link Korea Magazine.

Foto capa: tradeind.gov.tt

Fonte: Korea Magazine

Tradução: Camila Figueiredo

Revisão: Bárbara Brisa

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