Cozinhas tradicionais coreanas – Uma metáfora sobre a vida das mulheres

Vistas de fora, as casas tradicionais coreanas são elegantes e dignas. Seja em grandes residências de telhado de azulejo ou em humildes cabanas de palha, elas são graciosas e atraentes a seu próprio modo. E embora as casas de colmo dos plebeus dificilmente tenham resistido ao tempo,  restam ainda algumas das antigas residências da nobreza, demonstrando a beleza graciosa das casas tradicionais.

No entanto, quando observadas de dentro, essas atraentes casas antigas parecem apresentar problemas consideráveis ​​para a vida moderna. Eles são especialmente hostis às mulheres, que são responsáveis ​​pelo trabalho doméstico na maioria dos casos. Os moradores dessas casas – geralmente o filho mais velho da linhagem principal de uma família e sua esposa, que assumem a responsabilidade de manter o legado de seus ancestrais – muitas vezes admitem que é difícil viver nelas sem algumas reformas. Na maioria dos casos, a cozinha é o primeiro lugar a ser reformado.

COZINHANDO E AQUECENDO AO MESMO TEMPO

A cozinha de uma casa tradicional coreana foi projetada para que o aquecimento e o cozimento pudessem ser realizados ao mesmo tempo. Galhos e gravetos eram queimados na fornalha abaixo do fogão de barro, enviando o ar quente que fluía pelas chaminés sob o piso, para aquecer o chão. O ar na sala também era aquecido através do calor convectivo. Nesse meio tempo, as panelas de ferro no fogão eram usadas para cozinhar arroz e outros pratos. Era um sistema muito eficiente em um momento em que as fontes de combustível eram escassas.

Quando essas casas foram construídas há séculos, elas teriam sido a solução arquitetônica ideal para as condições naturais e ecológicas da época. A cozinha também teria sido construída aplicando uma série de conhecimentos científicos e tecnológicos disponíveis naquela época. No entanto, gradualmente o desenvolvimento tecnológico nos campos de combustíveis, ferramentas e equipamentos trouxeram profundas mudanças para o estilo de vida das pessoas. E por isso, agora parece impossível manter o velho modo de vida em uma casa tradicional sem modernizar a cozinha.

Em visita a antiga casa de Park Gyeong Jung, que se distingue pelo estilo e tamanho entre as antigas residências remanescentes na região de Honam, no sudoeste da Coreia, Hahn Han Hee conta que no local onde Park Seung Hui (1814-1895), da sexta geração de ancestrais morava, era uma casa de palha, que seu pai, Park Jae Gyu (1857-1931) construiu, inspirando-se no palácio real. Park Gyeong Jung, o filho mais velho da família da cabeça do clã, que mora na casa e cuida dela, explica que a construção separada dos aposentos internos e externos, apesar de ter começado em 1884, foi concluídaapenas por volta de 1930, onde todo o complexo foi finalizado com as estruturas auxiliares. Era espantoso ver que uma casa daquele tamanho, tivesse sobrevivido em grande parte sem danos, às guerras e ao tumulto social das décadas seguintes.

Quando Hahn Han Hee parou no pátio e olhou para a casa, uma nova cozinha moderna chamou sua atenção. Localizada em um prédio separado, ela apresentava um contraste marcante com a antiga adjacente ao anbang (quarto principal) nos aposentos internos. Disseram-lhe que a cozinha e a sala de jantar haviam sido construídas em um galpão à oeste dos aposentos internos, quando a mãe de Park, Yim Myo Suk – nora mais velha da 14ª geração da família da cabeça do clã – ficou frágil demais para usar a cozinha de espera.

A vida de uma casa continua apenas quando as pessoas vivem nela. Não importa quão valiosa seja uma casa, ela não será mais que um museu se ninguém morar nela. Portanto, uma casa deve ser reformada para acomodar o estilo de vida contemporâneo – na medida em que não oferece danos excessivos à estrutura original – para que a família possa viver geração após geração. Nesse sentido, observou-se que a antiga casa da família Park, era  notável, pois manteve sua vitalidade sem perder sua elegância original.E a moderna cozinha no novo galpão parecia simbolizar essa vitalidade duradoura.

A COZINHA SE ESTENDE A TODA A CASA

Histórias das mulheres que cuidaram desta casa por gerações, ganharam vida no lugar onde passaram tanto tempo. A velha cozinha, com suas características originais preservadas quase intactas, falava intimamente sobre a vida dessa geração de noras.

Para preparar as refeições diárias, as mulheres estavam sempre ocupadas dentro e ao redor da cozinha. Elas tiravam água do poço no pátio localizado afrente, para lavar arroz e legumes, e iam e voltavam para o terraço onde havia uma variedade de condimentos, frutos do mar salgados e kimchi. Consequentemente, o poço e o terraço da panela de barro eram considerados como uma extensão da cozinha, na medida em que todos contribuíam para a vida culinária da família.

Além disso, o galpão de grãos e de estoque de alimentos, eram considerados prédios complementares à cozinha. O maru (hall com piso de madeira) dos aposentos internos também funcionava como parte da cozinha, com uma grande arca de arroz, pratos de reserva, pratos e mesas portáteis empilhadas nas prateleiras da parede, em um canto. Em suma, toda a área interna desempenhava algum papel na cozinha, como a vemos hoje. O que era comum não somente nesta casa.

A estrutura típica de uma casa tradicional resultou no uso flexível do espaço, porque a culinária coreana envolve uma variedade de ingredientes básicos que são preparados em grande escala, exigindo uma quantidade considerável de espaço. Ao fazer kimchi suficiente para passar o inverno, ou preparar condimentos básicos como ganjang, doenjang e gochujang, as mulheres expandiam os limites da cozinha, muitas vezes até o quarto principal.

Onggi | Fonte: Kocef Tistory

Nessas ocasiões e durante os feriados sazonais, as partes mais quentes das salas do ondol  (sistema de aquecimento do piso) eram aquecidas por uma coleção heterogênea de bacias e bowls com conteúdo misterioso. No limiar do inverno, quando as pessoas faziam kimchi para que durasse até a primavera, mais de cem cabeças de acelga eram empilhadas no alto do pátio, esperando para serem lavadas e salgadas em enormes bacias. Hoje em dia, a quantidade de kimchi que cada agregado familiar produz durante o inverno diminuiu significativamente, dadas as grandes mudanças na demografia e na dieta dos coreanos, bem como pelo ambiente residencial, que raramente proporciona espaços abertos tão grandes.

Em uma casa tradicional, todos os procedimentos básicos de preparo dos alimentos, acontecia dentro da cozinha, mas outros lugares como o pátio, os quartos e a sala com piso de madeira que ficava nos aposentos internos, também aproveitados sempre que necessário. De certa forma, toda a casa funcionava como uma cozinha, o que mostra quanto trabalho doméstico as mulheres tinham no passado e o quanto suas vidas devem ter sido difíceis.

O CHEIRO PERSISTENTE DA FUMAÇA

Durante sua pesquisa de campo em uma aldeia rural em Naju, em meados da década de 1980, Hahn Han Hee conheceu a nora mais velha de uma família de chefes de clã. Tendo oportunidade de registrar sua a rotina diária.

“Para uma unamdaek (apelido para  ‘esposa da aldeia de Unam’), o dia começa às cinco da manhã, quando ela acorda e faz fogo na cozinha. A cozinha é um lugar espaçoso com lenha empilhada em um canto, um almofariz de pedra e uma pedra de moinho em outro, e um enorme pote de água retirado do poço em pé no chão. Há dois buracos para panelas de ferro grandes no fogão sobre o forno, e ela se agacha na frente dele para acender um fogo.

Antes de fazer o café da manhã, ela oferece uma tigela de água limpa para Jowang, o deus da cozinha, intercedendo pela saúde e pelo bem-estar de sua família. Ela coloca o arroz, lavado e embebido de água na noite anterior, em uma panela de ferro para cozê-lo no vapor. E então, servido com alguns pratos na mesa do café da manhã. Sendo a família de boa condição, a unamdaek costumava ter muitas mãos de ajuda. Suas cunhadas e filhas também auxiliavam na cozinha. Até que muito tempo depois, este contingente diminuiu consideravelmente.

Depois do café da manhã, ela saia para trabalhar nos campos e voltava para casa ao entardecer, quando ainda se mantinha atarefada, já que precisava fazer a seleção da colheita do dia de legumes e outros ingredientes trazidos do campo, para então, fazer o jantar.

A velha cozinha criava o imaginário de um espaço escuro e coberta de fuligem, mas na verdade era limpo e arrumado. Como galhos de madeira e pinho eram usados para fazer fogo para cozinhar, a fumaça do fogão de barro enegreciam as paredes e o teto. Os cabelos grisalhos das Unamdaek que se sentavam em frente ao fogão, contrastavam com as paredes cobertas de fuligem. Na época, poderia se dizer que os seus cabelos grisalhos e a fuligem ofereciam duas expressões semelhantes em relação ao fruto do meticuloso trabalho que realizavam na cozinha. Suas saias eram permeadas por fuligem, que seus filhos talvez lembrem como o cheiro de casa.

Em 1992, aquela unamdaek finalmente derrubou a velha casa e construiu uma nova com uma cozinha moderna. Em vez de fazer fogo para cozinhar arroz em um fogão de barro, ela passou a usar gás para cozinhar e óleo para aquecer.

LENTAS MUDANÇAS AO LONGO DO SÉCULO

Durante a modernização da Coreia no século 20, o país passou por mudanças políticas, sociais, econômicas e culturais radicais, que também transformaram a vida cotidiana e a linha de pensamento das pessoas. Há apenas 10 anos, a cozinha era considerada o lugar de uma mulher, hoje em dia não mais. Hoje, a palavra preferida por muitos jovens para se referir a cozinha, é jubang, que significa “sala culinária”, em vez de bueok, que evoca a imagem de um lugar desatualizado ou pouco desenvolvido.

Cozinha coreana moderna | Fonte: Pinspirationaz

No último século, a Coreia testemunhou mudanças e uma modernização consistente na cozinha. Dado que modo metafórico a cozinha tem sido o lugar de representação da vida de uma mulher na realidade coreana, é necessário prestar mais atenção às mudanças espaciais e estruturais que ocorreram durante este período, mudanças estas, impulsionadas pelo desenvolvimento da tecnologia científica e do comercialismo. Em suma, o funcionalismo e a racionalidade enraizados no cientificismo tornaram as tarefas domésticas muito mais fáceis. Mas foi difícil, considerando que o desenvolvimento adequado e a infraestrutura urbana levaram muito tempo até que acontecessem, o que exigiu que a estrutura das casas individuais tivesse que ser alterada completamente.

O abastecimento de água começou a chegar às cidades no final dos anos 50, mas levou mais de 30 anos até agregar a cozinha em todos os lares. O uso de fontes eficientes de combustível, um pré-requisito para as cozinhas modernas, era outro assunto a ser abordado, pois os briquetes de carvão ainda estavam em uso até a década de 1970, mesmo nas cidades. Foi somente na década de 1980 que os sistemas de energia e aquecimento para cozinhar, foram finalmente separados.

A modernização das cozinhas coreanas ao longo do último século foi em grande parte acelerada pela vontade de mulheres como as da casa do Park Gyeong Jung e das Unamdaek. A mulher tentou melhorar suas condições de vida à sua maneira, sonhando em transformar sua rotina diária, ainda que limitada. E por isso, gostaria de dizer às suas filhas que tudo foi possível graças ao pensamento racional das mulheres comuns que tentaram tornar o seu ambiente familiar mais conveniente e eficiente.

Tradução do artigo “Traditional korean kitchens – A Metaphor for women’s lives” de Hahm Han Hee, professor de Arqueologia e Antropologia Cultural da Universidade Nacional de Chonbuk, publicado na revista Koreana – Korean Culture And Arts 3, edição de Outono de 2017. Texto com adaptações feitas para esta publicação.

Deixe um comentário