Soban – Mesa particular para refeição

Soban é um mobiliário compreendido como a intermediação entre uma mesa e uma bandeja, devido a sua forma, estrutura e funcionalidade. De uso particular, seu sentido está associado ao estilo de vida tradicional coreano, fazendo parte da vida cotidiana, desde o nascimento até os momentos finais da morte. Sendo portanto, de uso indispensável.

No sentido instrumental, era utilizado para transportar uma refeição de modo individual, da cozinha até a sala ou quarto. Era ainda nele, que as pessoas faziam as refeições. Podia-se também recorrer ao seu uso como um móvel de suporte para os momentos de educação e instrução.

O SOBAN AO LONGO DA HISTÓRIA

Murais e esculturas datados do reino de Goguryeo já registravam a presença cotidiana do Soban. Em “Dining Tables: Korean Traditional Handicrafts” Man Sil Pae observa que conforme os anos foram se passando, as técnicas e habilidades de feitura e uso do Soban foram se diversificando e tornando mais refinadas. De Goryeo a Joseon, a criatividade e inovação na produção de artigos tradicionais como o Soban, tiveram apelo atemporal. O que justificaria sua presença efetiva até os dias de hoje no cotidiano dos coreanos.

Especialmente em Joseon, o uso do Soban se fez presente em todas as casas, ou em sua maioria. E seu uso era fortemente guiado pelos preceitos confucionistas. Onde homens e mulheres, jovens e anciãos eram rigorosamente distinguidos na sociedade. Sendo assim, as refeições eram servidas de modo individual em uma mesa pessoal. Man Sil Pae complementa que na maioria dos lares, todos comiam em Soban próprio seguindo a norma confucionista que enfatizava a distinção entre sexos, gerações, patentes familiares e sociais. Particularmente, no que se refere ao sexo, meninos a partir dos sete anos adquiriam a concessão de terem suas refeições servidas em Soban, enquanto para as meninas, esta regra não se aplicava.

O Soban carregava consigo a complexidade da distinção social em contraste com a igualdade de seu acesso. Onde ao passo que se diferenciava pela qualidade da madeira de sua feitura e do que nele era servido a depender da classe social que se pertencesse, por outro lado, da realeza, aristocracia aos plebeus, todos podiam comer suas refeições em um Soban. Sendo, portanto, considerado um dispositivo de manutenção de um nível básico de dignidade durante as refeições, ou seja, uma expressão de respeito humano independentemente do status social.

Cabe ainda destacar os códigos que o Soban carregava a partir do contraste geracional. Através do mobiliário, a educação no lar também era veiculada. Um avô e um neto podiam dividir uma mesa de jantar. Neste ritual cotidiano das refeições, o avô naturalmente transmitia seu código de ética e moralidade aos netos. Por exemplo, o mais novo não deveria começar a comer diante do avô e não podia tocar em nenhum prato compartilhado antes que o avô o provasse. No entanto, nem toda esta relação era unilateral. Uma forma do avô demonstrar não só os preceitos morais, como também seu amor e apreço pelos netos, podia ser expresso a partir do ato de começar a refeição pelo prato que seu neto mais gostasse, permitindo assim que o mesmo o apreciasse livremente.

Desse modo, o Soban era considerado uma parte essencial do estilo de vida tradicional da sociedade coreana. Onde as pessoas comiam, bebiam vinho e chás, liam livros e conversavam, sempre tendo o mobiliário presente enquanto estavam sentadas no chão. E, por isso, o Soban passou a ser considerado ao longo da história como um importante objeto cultural que sustentou a cultura tradicional coreana.

TIPOS DE SOBAN

Choi Min Young, editor da Korean Heritage destaca em entrevista com os mestres artesãos de Soban, Kim Chun Sik e o artista Ryu Jong Dae, que entre as tradições regionais sobreviventes de Soban, é possível destacar três distintos estilos. O Naju, da província Jeolla do Sul, o Haeju da província de Hwanghae e Tongyong da província Gyeongsang do Sul. Os tipos podem diferir ainda pelas pernas do Soban, podendo ser inspiradas na forma das patas de cachorro ou de tigre, pelos tipos de madeira, pelos símbolos auspiciosos talhados e etc.

  • NAJU – Característico por sua simplicidade. Com poucos adornos, o Soban de naju possui entalhes minimalistas, transmitindo uma sensação natural, de estrutura robusta, porém delicada. É facil de higienizar e possui uma qualidade apreciável.
  • HAEJU – Conhecido por sua escultura magistral e extravagante, o Soban de haeju pode ser feito de madeira de nogueira, tília ou ginko, garantindo a este tipo que sua madeira não rache ou envergue ao longo do tempo.
  • TONGYONG – Popular por seu design de madrepérola, este tipo de Soban é muito resistente e pesado, e, portanto, mais difícil de transportar.
DO MOBILIÁRIO TRADICIONAL A SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

Para o artista Ryu Jong Dae, o Soban não perdeu sua popularidade a medida que a sociedade tradicional coreana se ajustava a modernidade. Sendo de algum modo, seu uso e utilidade, ampliados, já que o estilo de vida moderno da Coreia, não gira mais exclusivamente em torno do chão e os itens domésticos como o mobiliário Soban, mudaram de forma a acomodar as transformações culturais e sociais. Seu trabalho, a exemplo, é um dos responsáveis por conferir a artigos tradicionais do cotidiano coreano, uma nova visão.

Foi assim que ele desenvolveu o Digital Soban, um Soban construído a partir da impressão 3D. Para desenvolver seu design, ele se inspirou nas telhas enfileiradas e sobrepostas do telhado do Palácio Gyeongbok. Juntando as pernas em impressão 3D a uma bandeja de madeira envernizada, ele deu nova forma ao Soban, unindo a tradição aos conceitos um tanto abstratos da arte contemporânea.

Por outro lado, ainda há mestres artesãos do tradicional Soban, como Kim Chun Sik que pratica a tradição de feitura e restauração de Soban, fazendo de cada mobiliário, uma peça única e característica. Para ele, “a cultura tradicional coreana é incompleta sem a etiqueta apropriada. E o Soban é uma parte disso. É meu chamado continuar estudando a tradição do soban de Naju e passá-la para as gerações futuras”.

Para ambos, o Soban continua a desempenhar um papel importante na vida cotidiana como um objeto no qual as pessoas comem, leem, conversam e interagem por meio de. E que portanto, o conectam do passado, presente até o futuro.

Referências Bibliográficas

Soban, a Traditional Dining Table for the Future – Choi Min Young (Korean Heritage)

Dining Tables: Korean Traditional Handicrafts – Pae Man Sil

Soban: more than small tables – Chung Ah Young (Korea Herald)

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